sexta-feira, 18 de agosto de 2017


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E hoje ardeu o Colégio de S. Fiel…
Tenho um percurso de vida que me traz algumas dificuldades quando me perguntam sobre as minhas origens. Não me considero filha de um local só. Nasci em França, na bela cidade de Chambéry, que abandonei tão novinha que poucas lembranças me deixou. Ainda assim, sinto uma inclinação para a língua e cultura francesas que me fazem acreditar que o local onde vemos a luz do dia pela primeira vez nos deixará marcas indeléveis.
Alguns anos após o meu nascimento, a família voltou para Portugal e abriu as malas que trazia numa vilinha perto da Covilhã. E foi aqui que cresci, me tornei adulta e é esta a cidade que sinto como minha. Considero-me covilhanense e considero a cidade como minha. Contudo, as raízes dos meus pais não são covilhanenses. São albicastrenses. Ou melhor dizendo, são de duas aldeias que pertencem a este distrito. Aldeias tão pequenas que, a não ser os seus habitantes e as pessoas a elas ligadas por motivos familiares, ninguém conhece. E, por serem as aldeias onde nasceram os meus pais, por serem as aldeias onde passei férias e por serem as aldeias onde ainda tenho familiares, também as considero um pouco minhas.
Nos últimos dias, Casal da Serra foi apresentado ao país pelos piores motivos. Mais uma vez a Serra da Gardunha está a arder, mais uma vez a aldeia está em risco…Infelizmente, já vi este cenário mais vezes (a “serra” do Casal da Serra tem tendência a arder, de um modo mais ao menos cíclico, de 15 em 15 anos). Nunca nada nos prepara para esta situação. Os incêndios são uma calamidade, sem dúvida. Contudo, quando batem à porta de locais que nos são caros, a dor é ainda maior, quase insuportável. Ainda não recomposta do incêndio de Pedrógão e Castanheira de Pera (que, por ter sido um dos locais onde trabalhei, considerava um pouco meu) eis que arde a Gardunha, num incêndio completamente descontrolado que tem levado tudo pela frente, nomeadamente aldeias que conheço desde que vinha passar férias de verão a Portugal.
Hoje fiz a viagem Covilhã – S. Vicente da Beira, para um almoço em família. Quem segue os noticiários saberá que um dos focos deste incêndio se iniciou em S. Vicente da Beira, que fica a escassos quilómetros de Casal da Serra. A viagem foi terrível. Passados os túneis da Gardunha senti que tinha entrado num cenário de guerra. Terra queimada por onde quer que olhasse, uma nuvem espessa à minha frente, um cheiro medonho a queimado no ar, aqui e ali, ainda locais a fumegar. Mas não havia sinais de incêndio perto. Continuava a arder na serra mas pensei que estaria controlado. Ainda que de coração pesado, respirei com algum alívio. Contudo, quando quis regressar para a Covilhã fiquei a saber que as estradas estavam cortadas. Estava a arder outra vez em Louriçal do Campo e na Soalheira. Mais uma vez o vento tinha virado e o fogo estava descontrolado. E agora, que cheguei a casa, ouço que está a arder o Colégio de S. Fiel.
E porque é que esta notícia me causou uma dor ainda maior? Nem tenho resposta. Desde que me lembro de ser gente que me lembro de passar por este edifício imponente ainda que votado ao abandono. Era um edifício que alternava entre o majestoso e o dantesco. Quando questionava o meu pai sobre a finalidade que tinha tido aquele edifício o meu pai apenas me dizia que tinha servido de colégio para jovens mal comportados. Mais velha pesquisei um pouco sobre ele. Continuava a sentir-me fascinada por este edifício. Descobri que este colégio tinha começado por ser um estabelecimento de ensino a cargo da Companhia de Jesus. Mais tarde (e seria essa a época que o meu pai recordava) serviu de reformatório, sendo uma instituição que recebia menores enviados pelo Tribunal de Menores, chegando a ser conhecido como Instituto de Reeducação de S. Fiel. Dizem que Egas Moniz (o nosso prémio Nobel da medicina) terá aí terminado os estudos secundários.
Ano após ano passei por este Colégio. Observava aquela enorme estrutura, votada ao abandono há tantos anos e pensava no desolador que era ver negligenciados todo aquele edifício e o espaço circundante (uma vasta área arborizada).
O ano passado, fez exatamente um ano há poucos dias, tive possibilidade de visitar o edifício. Não da forma que se poderia pensar mas porque a freguesia de Louriçal do Campo organizou uma atividade no colégio que intitulou “Entre Mundos”. A ideia foi realizar um percurso dentro do Colégio de S. Fiel onde os espetadores teriam encontros com seres do além: almas penadas, lobisomens e outras criaturas medonhas (O edifício servia muito bem a esses propósitos). Tive a minha oportunidade de ouro para visitar algumas áreas deste fantástico edifício. Não vi nem metade…mas era um edifício particular. Com uma energia muito própria. Gostei e esperava pela nova edição do Entre Mundos com alguma expetativa. A atividade foi muito bem-sucedida. Penso que a perspetiva dos organizadores terá sido o de relembrar a existência daquele edifício e demonstrar as potencialidades de aproveitamento turístico que o mesmo poderia ter. E este ano chegou uma notícia que muito me agradou. O Colégio de S. Fiel fazia parte do projeto lançado pelo governo intitulado “Revive” que cedeu algum património imobiliário público para investimento privado a fim de desenvolver projetos turísticos. De entre vários imóveis lá constava o “meu” Colégio de S. Fiel. Apesar de considerar que seria difícil a recuperação de todo o edifício, pensei que poderia assistir à sua recuperação (ou parte) dando-lhe a magnificência que deveria ter em outros tempos.

 E hoje…hoje o sonho terminou. O fogo que lavrou em S. Vicente da Beira, em Casal da Serra, que deixou irreconhecíveis tantos locais pelos quais me habituei a passar todos estes anos, esse mesmo fogo, fruto da mudança do vento, seguiu sem piedade para o Louriçal do Campo e para o Colégio de S. Fiel. A situação que nunca se desenhou na minha cabeça aconteceu. O Colégio de S. Fiel que eu imaginava há pouco tempo renovado, o Colégio pelo qual ainda hoje passei, que se mantinha majestoso apesar do ar decrépito, dos seus vidros quebrados, do seu ar de abandono, aquele edifício imponente que encontrávamos à entrada do Louriçal do Campo, foi cruelmente levado pelas chamas. Sinto que um pouco de mim, talvez um pouco da menina que observava com curiosidade aquele edifício, desapareceu. Sinto-me desolada. Sinto que desapareceu, juntamente com toda aquela serra, um importante pedaço da nossa história…O majestoso edifício que foi votado ao abandono por este país que não valoriza o seu património, levou hoje a machada final, sucumbindo às chamas. E o fogo continua a lavrar…e a alma vai ficando cada hora mais pequenina… 

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